Carregamento de veículos elétricos em condomínios
- renan verli
- 5 de set. de 2025
- 8 min de leitura
Atualizado: 14 de set. de 2025
RESUMO
A eletrificação da mobilidade urbana exige infraestrutura adequada para suportar o crescimento dos veículos elétricos (VEs). Este artigo apresenta os benefícios, os desafios e as soluções técnicas para a implantação de eletropostos em condomínios, bem como o impacto da modernização das redes elétricas e das normativas de segurança.
1.0 — INTRODUÇÃO
Vivemos um momento de transformação no setor de mobilidade, com a eletrificação dos transportes desempenhando um papel crucial na sustentabilidade urbana. Condomínios residenciais e comerciais são locais estratégicos para a implantação de soluções de carregamento de veículos elétricos. Este artigo não apenas retrata o cenário atual da eletromobilidade condominial e com as suas anuências técnicas e legais, bem como aponta para um futuro em que a integração entre eletromobilidade e espaços coletivos será tão natural quanto indispensável.
2.0 — O CENÁRIO DA MOBILIDADE ELÉTRICA
Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o mercado de veículos eletrificados leves no Brasil registrou crescimento de 89% entre 2023 e 2024, com 177.358 emplacamentos em 2024 contra 93.927 no ano anterior [1]. Com esse crescimento, aumenta a necessidade de infraestrutura de recarga eficiente, onde os condomínios se tornam potenciais polos de instalações devido à demanda constante e à disponibilidade de vagas eletrificadas. A expansão da frota de veículos elétricos no Brasil acompanha tendências globais de descarbonização, e o setor imobiliário precisa estar preparado para atender essa nova realidade. A ausência de infraestrutura adequada poderá impactar a atratividade e a valorização dos empreendimentos imobiliários, especialmente em áreas urbanas densas.
3.0 — BENEFÍCIOS PARA CONDOMÍNIOS
A instalação de carregadores em condomínios vai além de um diferencial de mercado: trata-se de uma necessidade crescente. A possibilidade de recarregar o veículo no próprio local de residência oferece uma experiência muito mais conveniente ao usuário, estimulando ainda mais a adoção dos veículos elétricos. Além disso, a infraestrutura de recarga: valoriza o imóvel, tornando-o mais atrativo para locação ou revenda; contribui para metas de ESG (Environmental, Social and Governance), sendo bem vista por investidores e fundos imobiliários; reduz a pegada de carbono da comunidade condominial; pode ser integrada a fontes renováveis como sistemas fotovoltaicos, potencializando a economia e a sustentabilidade; promove o senso de comunidade, ao envolver condôminos em projetos inovadores de eficiência energética.
4.0 — DESAFIOS DA IMPLANTAÇÃO
Apesar das vantagens, a instalação de eletropostos enfrenta desafios técnicos, normativos e administrativos. O primeiro desafio técnico é a adequação da infraestrutura elétrica. Um número crescente de municípios já exige que novos empreendimentos imobiliários incorporem vagas com infraestrutura para carregamento veicular, mas as infraestruturas prediais existentes não foram projetadas para a demanda adicional imposta pelos carregadores. A sobrecarga dos quadros de distribuição, a ausência de dimensionamento específico e a limitação da entrada de energia são barreiras comuns.
Outro ponto sensível é a gestão de custos. A implantação exige investimento em infraestrutura elétrica, equipamentos homologados, além da contratação de mão de obra especializada. Modelos de rateio, cobrança individualizada por consumo e até parcerias com operadores de eletropostos são alternativas para viabilizar financeiramente o projeto.
Além disso, o aspecto social é igualmente relevante: a aprovação em assembleia condominial pode representar um desafio, especialmente quando há falta de informação clara sobre os benefícios e os custos envolvidos. O tão comentado 'consenso' nas assembleias condominiais frequentemente se revela um eufemismo elegante para as inevitáveis resistências à mudança e os embates sobre novas tecnologias. Por trás dessa retórica harmoniosa, escondem-se as tensões entre o status quo e a inovação, onde síndicos e administradoras desempenham o delicado papel de mediadores entre os interesses coletivos e a adoção tecnológica.
Por fim, normas de segurança ganham cada vez mais protagonismo, com a iminente publicação da diretriz nacional pelos Corpos de Bombeiros [2], que exigirá que as instalações estejam conforme padrões mais rigorosos.
5.0 — SOLUÇÕES DE CARREGAMENTO
A implantação bem-sucedida de estações de carregamento em condomínios requer planejamento e soluções técnicas apropriadas. Há duas possibilidades principais de abordagem: A primeira é a instalação de carregadores coletivos, controlados por um sistema centralizado de gerenciamento. Neste modelo, os pontos de carregamento são compartilhados e administrados por um software que distribui a energia de maneira balanceada, evita sobrecargas e permite cobrança individualizada. Essa solução oferece mais flexibilidade e segurança elétrica ao condomínio, otimizando o uso da capacidade instalada e prevenindo o acionamento simultâneo de vários carregadores além do limite suportado. Vale destacar que os custos operacionais dessa modalidade tendem a ser mais elevados, pois podem englobar tanto o serviço de gestão quanto o consumo de energia elétrica (kWh). Do ponto de vista legal, essas operações estão amparadas pelo Art. 554 da Resolução ANEEL, que permite a recarga de veículos elétricos de terceiros na unidade consumidora, inclusive para fins comerciais, com valores livremente negociados entre as partes. Quando se trata de gestão e pagamento, as soluções em nuvem se mostram particularmente eficientes, oferecendo monitoramento em tempo real, histórico de uso e cobrança automatizada por usuário. A transparência nesses processos é crucial para prevenir conflitos e fortalecer a confiança entre os moradores. Neste sentido, é fundamental verificar se a empresa responsável pelo gerenciamento possui registro no conselho regional de engenharia (CREA) e mantém em dia as Anotações de Responsabilidade Técnica (ARTs) referentes à manutenção do sistema, garantindo segurança e responsabilidade legal à operação.
A segunda alternativa consiste na instalação de carregadores individuais conectados diretamente aos medidores de cada unidade, com limitadores de corrente ajustados à capacidade do disjuntor geral. Esta solução apresenta um risco crítico de pico de carga coincidente, pois o fator de carga tenderá a se aproximar de 1 quando múltiplos usuários realizarem a recarga simultaneamente no período noturno, situação em que a demanda média se iguala à demanda máxima. Este cenário ultrapassa os critérios de dimensionamento convencional de edifícios, que não consideram a possibilidade de operação simultânea em plena capacidade por todas as unidades consumidoras. O sistema elétrico predial, projetado para fatores de carga tipicamente inferiores a 0,5 em condições normais, fica vulnerável a sobrecargas nessa condição extrema de operação.
Além disso, esse modelo pode não contar com acompanhamento técnico contínuo após a instalação, o que representa um risco adicional à segurança e confiabilidade do sistema. Assim, esse modelo exige um estudo técnico rigoroso e, idealmente, um sistema inteligente de controle de demanda para mitigar os riscos.
Particularmente, defendo que o mais importante e adequado é contratar uma empresa especializada para realizar a manutenção contínua desses sistemas de carregamento, à semelhança do que já ocorre com os elevadores nos edifícios. Afinal, ninguém gostaria de descobrir que o elevador do seu prédio opera sem uma empresa de manutenção responsável. O mesmo princípio de segurança preventiva deve ser aplicado aos sistemas de recarga elétrica.
A análise técnica prévia, que envolve vistoria da infraestrutura existente, cálculo da demanda, avaliação da necessidade de aumento de carga e a elaboração de um projeto executivo, deve ser conduzida por profissional habilitado e qualificado.
A escolha dos equipamentos também é determinante. É fundamental optar por carregadores com certificações nacionais, com proteção contra sobrecarga, curto-circuito e falhas térmicas.
A instalação deve seguir as orientações da ABNT NBR 17019:2022 (Instalações elétricas de baixa tensão - Requisitos para instalações em locais especiais - Alimentação de veículos elétricos), ABNT NBR IEC 61851-24:2021 (Sistema de recarga condutiva para veículos elétricos), ABNT NBR IEC 62196 1-2:2021 (Plugues, tomadas, tomadas móveis para veículos elétricos e plugues fixos para veículos elétricos - Recarga condutiva para veículos elétricos), além disso, é obrigatório cumprir as normas das concessionárias de energia locais. Conforme estabelece a Resolução ANEEL 1000, Art. 550, a instalação de estações de recarga deve ser formalmente comunicada à distribuidora nos casos de necessidade de nova conexão, aumento ou redução de carga, ou ainda quando houver alteração do nível de tensão.
Outro ponto importante é a integração com fontes renováveis. Muitos condomínios já contam com painéis solares que, aliados a sistemas de recarga inteligentes, permitem maior autonomia energética e redução das contas de luz. A implementação de baterias estacionárias pode complementar o sistema, ampliando a estabilidade e reduzindo picos de demanda.
6.0 — A INFRAESTRUTURA ELÉTRICA COMO ELEMENTO CRÍTICO
A realidade da infraestrutura elétrica urbana é heterogênea, o que exige abordagens distintas para cada região. Bairros como Copacabana (RJ), com edificação vertical antiga, enfrentam limitações estruturais graves: transformadores sobrecarregados, ausência de projeto “as built” e elevadores obsoletos compõem um cenário que dificulta qualquer tipo de modernização.
Por outro lado, áreas como Barra da Tijuca (RJ) e Itaim Bibi (SP), com desenvolvimento urbano mais recente, oferecem condições muito mais favoráveis. A presença de sistemas de distribuição automatizados, cabines de média tensão com chave a gás (SF₆), caixas transformadoras modernas e documentação técnica atualizada são fatores que reduzem os riscos e os custos da instalação de eletropostos. Essa comparação evidencia que o avanço da eletromobilidade depende diretamente da infraestrutura urbana existente e da sinergia com as concessionárias locais.
7.0 — A CONTRIBUIÇÃO DOS CORPOS DE BOMBEIROS
Em decisões que podem inviabilizar o modelo de negócio de eletropostos em condomínios, a premissa de que “direção é mais importante que velocidade” se aplica perfeitamente. Após um período de incertezas causadas por interpretações divergentes, o setor de eletromobilidade foi afetado por desinformações que prejudicaram a adesão de condomínios. Por um breve momento, muitos consideraram o Corpo de Bombeiros como a antítese do avanço da eletromobilidade em condomínios. No entanto, essas alegações são infundadas, uma vez que o Corpo de Bombeiros, instituição reconhecida e comprometida com a segurança, sempre atua com base em normas técnicas e boas práticas. Neste contexto, o diálogo construtivo entre o Corpo de Bombeiros e entidades como a ABVE reflete maturidade institucional e a busca por soluções equilibradas que preservem a viabilidade do setor.
Durante o Workshop Internacional “Eletromobilidade & Segurança nas Edificações”, o Corpo de Bombeiros anunciou a finalização da diretriz nacional para a instalação de estações de recarga em edificações. Foi informado que a nova regulamentação prioriza a segurança das instalações sem comprometer a viabilidade econômica, sendo desenvolvida com base em aprendizados práticos e ampla interlocução com fabricantes, entidades da construção civil e especialistas em energia [2].
Diferente de propostas iniciais que sugeriam medidas como distanciamento rígido entre veículos e construção de compartimentos isolados, a diretriz nacional adotará critérios mais razoáveis.
É fundamental que síndicos, administradoras e moradores atentem para a possível necessidade de atualização do projeto de prevenção e combate a incêndios, que deverá ser reavaliado conforme as novas exigências regulatórias. Em paralelo, observa-se que alguns condomínios já estão adotando, de forma proativa, a instalação de extintores específicos para combate a incêndios envolvendo baterias de lítio, mesmo antes da exigência formal por norma.
8.0 — CONCLUSÕES
A transição para a mobilidade elétrica é irreversível, e os condomínios podem desempenhar papel essencial nesse avanço. Soluções bem planejadas agregam valor, convêm aos moradores e promovem a sustentabilidade. A chave está na colaboração entre condôminos, administradoras, empresas instaladoras, concessionárias e os Corpos de Bombeiros, garantindo segurança e conformidade regulatória.
Nesse processo de modernização, assim como um novo asfalto exige máquinas e desvios temporários, a inovação também traz os seus transtornos para abrir caminho ao novo. Mas, ao final, ela corrige as falhas do trajeto antigo, substitui o que é obsoleto e nos conduz a um futuro mais moderno, seguro e sinalizado. No final, a inovação transformadora sempre vai trazer economia, praticidade, tecnologia e sustentabilidade, e a eletromobilidade é uma das avenidas mais tangíveis dessa transformação.
9.0 — REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] ABVE. Eletrificados passam de 170 mil e batem todos os recordes – 2024. Acesso em: junho de 2025. Disponível em: https://www.abve.org.br\
[2] MORELLI, Rubens. Norma para estações de recarga em edificações está pronta. Canal VE, 6 de junho de 2025. Acesso em: junho de 2025. Disponível em: https://canalve.com.br/norma-estacoes-recarga-edificacoes-esta-pronta/


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